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Sopro

Instrumentos de metal

Os instrumentos de metal possuem uma característica que os diferencia de todos os demais instrumentos. Quase todos os instrumentos que conhecemos possuem um gerador de som: a corda nos instrumentos de corda; a palheta nos instrumentos de madeira; a pele nos tambores; o gerador de ondas no sintetizador, etc.
Os instrumentos de metal são os únicos que fogem a essa regra. Neles, o gerador de som não está no instrumento, mas sim no corpo do executante: os lábios. No entanto, os lábios participam da última fase na execução do som nos instrumentos de metal. 

Em primeiro lugar, devemos pensar no AR que vamos colocar dentro do instrumento.
Em segundo lugar, temos de direcionar esse ar com a LÍNGUA. 
Essa junção ar e língua tem de ser aliada a um relaxamento constante da garganta para que o ar não saia espremido. E, finalmente, vem os lábios que juntos vão vibrar com a passagem do ar direcionado com a língua.

A colocação do ar em vibração, que atinge os tímpanos e termina no cérebro dos ouvintes depende do bom funcionamento das funções corporais utilizadas no ato da execução como sendo uma engrenagem de uma máquina. A técnica dos instrumentos de metal, ocupa-se num primeiro momento da interação entre cérebro, corpo e instrumento, trabalhando cada uma das partes que interagem no processo. 
Para podermos ter uma técnica que nos dê um domínio do instrumento, segurança na execução e riqueza de possibilidades para a interpretação, é fundamental que tenhamos consciência de tudo que estamos fazendo, e que saibamos a função exata de cada parte no todo.
Uma vez dominadas cada uma das partes que formam o todo, através de um estudo e controle consciente das mesmas, elas irão pouco a pouco passando para o subconsciente a ponto de se tornarem automáticas. 

 

A seguir, matéria extraída do site de Fernando Dissenha – 1º Trompete da OSESP

 

Embocadura
©Fernando Dissenha (2008) – www.dissenha.com
Definição
A palavra embocadura vem do idioma Francês: bouche – que significa boca. O Novo
Dicionário Aurélio define o termo como “o ato ou efeito de embocar”, ou seja, “aplicar
a boca a um instrumento, para dele tirar sons”. Para os instrumentistas de metal, uma
definição aceitável seria: a forma que os músculos da boca, lábios, queixo e rosto se
posicionam quando colocamos o bocal nos lábios para produzir o som no instrumento.
Embocadura Eficiente
A embocadura, atuando em harmonia com uma coluna de ar correta, deve ajudar o
instrumentista a expressar todas as suas idéias musicais. Uma embocadura eficiente
deve ser capaz de produzir uma sonoridade boa, uma grande extensão, variação de
dinâmicas, flexibilidade e articulações diversas. Além de tudo isso, a embocadura deve
suportar diariamente uma carga de estudos, ensaios e performances que podem durar
muitas horas.
Os cantos da boca são os pontos mais importantes de uma embocadura eficiente. Podese
notar que grandes artistas de instrumentos de metal têm sempre os cantos da boca
firmes, funcionando como suportes para a pressão que o bocal exerce sobre os lábios.
Alguns professores costumam usar a analogia de que os cantos da boca atuam como os
postes que seguram os cabos de energia. Para avaliar se os cantos da sua boca estão
cumprindo corretamente a tarefa de “suportar” a pressão, repare o que acontece quando
você tem algo extenso para tocar. Uma sinfonia de Bruckner ou Mahler para os
instrumentistas de orquestras, ou uma obra significativa do repertório da sua banda. Se
após essa atividade você sentir os músculos dos cantos da boca “exercitados”, diria que
a utilização dos mesmos está correta. O cansaço não deve ser sentido nos lábios. Eles
devem ser preservados, caso contrário a emissão de som ficará prejudicada.
Verdadeiros Problemas de Embocadura
Observando muitos trompetistas e pesquisando sobre o assunto, posso afirmar que
existem algumas situações que realmente podem ser chamadas de “problemas de
embocadura”.
A primeira delas diz respeito a apoiar o aro do bocal na parte vermelha do lábio
superior. Normalmente o indivíduo que apoia o aro do bocal nessa região tem
problemas sérios de emissão, extensão, articulação e resistência. O lábio superior é o
responsável pela vibração. O bocal colocado muito baixo diminui a área de vibração do
lábio superior e, sem vibração, não há som. Você pode comprovar isso fazendo um
buzzing (abelhinha) sem o bocal. Se você colocar o seu dedo indicador no centro do seu
lábio inferior durante o buzzing o som pode até diminuir, mas a vibração não pára. Faça
agora o buzzing e coloque o seu dedo indicador no centro do lábio superior. A vibração
cessa imediatamente. Obviamente a solução é subir o bocal de modo que o aro do bocal
apoie fora da parte vermelha do lábio superior.
A segunda situação que deve ser evitada é a “embocadura sorriso”, que ocorre quando
os lábios são esticados demasiadamente para produzir o som. Para corrigir esse
problema, a maioria dos professores orienta os alunos a buscar algo como um “sorriso
enrugado”. Explicando melhor: a pessoa deve enrugar os lábios (projetá-los à frente) e
posteriormente tentar sorrir. Dessa forma, obterá um equilíbrio melhor dos músculos,
resultando uma sonoridade melhor.
Posicionamento do Bocal
Regras com relação à colocação do bocal são absolutamente individuais. Cada pessoa
possui dentes, lábios e estruturas ósseas diferentes. Seria impraticável obrigar um
instrumentista a colocar o bocal num lugar que não é confortável e/ou eficiente. Um
pequeno desvio no posicionamento do bocal à esquerda ou à direita é absolutamente
normal.
Infelizmente alguns instrumentistas tentam criar a “embocadura de foto” como eu
costumo chamar. É aquela embocadura absolutamente linda, perfeita e exatamente no
centro dos lábios. Só existe um problema: ela pode ser ineficiente. Dessa forma, não
recomendo que se desperdicem preciosas horas de estudo em frente ao espelho tentando
ajustar a aparência da embocadura. Na realidade a nossa preocupação deve ser sempre
como a embocadura soa, e não como ela aparenta.
Quando faço essas afirmações quero deixar bem claro que, uma checagem eventual em
frente ao espelho é normal e saudável. É importante também que os professores fiquem
atentos, investiguem e auxiliem na busca de soluções sobre reais problemas de
embocadura. Acredito que orientar o aluno a buscar um bom som é mais adequado do
que tentar explicar como cada músculo da embocadura deve funcionar.
Problemas de Embocadura?
Se só existem poucos problemas, o que então causa tantas dúvidas e mal-entendidos
sobre a embocadura? O grande artista e professor Arnold Jacobs definiu muito bem a
situação dizendo que “a embocadura é o resultado das demandas musicais que são
colocadas sobre ela” (Frederiksen, 1996, p. 142).
Jacobs dizia que muitos alunos que reclamavam de problemas de embocadura na
realidade tinham dificuldades com a coluna de ar e com o posicionamento da língua.
Esses são assuntos para próximos artigos, mas é fácil entender que os frágeis lábios vão
obviamente sofrer se a pessoa tocar com pouco ar, ou estudar por diversas horas sem o
descanso adequado. Imagine também a dificuldade de articular se a língua
teimosamente bloqueia a passagem da coluna de ar. Exemplos como esses que citei,
podem ser facilmente confundidos com problemas de embocadura, mas na realidade não
são.
Um outro aspecto extremamente importante é a mensagem que mandamos para nossos
lábios quando tocamos. Além do ar, temos que “contar uma estória” como diria o
grande trompetista Adolph Herseth. No que se refere à embocadura, é essencial que
esqueçamos qual músculo fará o trabalho, mas sim como queremos soar. Em outras
palavras, não são os músculos que controlam o som, mas o som que controla os
músculos.
Eu tenho experiências muito interessantes com relação a essa idéia. No meu trabalho
temos sempre um ensaio geral na quinta-feira pela manhã e um concerto à noite. Em
várias ocasiões, quando tocamos programas pesados, é inevitável um certo cansaço
antes do concerto. Nesses momentos, a melhor opção é pensar na mensagem musical a
ser transmitida, e usar o ar da forma mais eficiente possível. Seria absolutamente inútil e
improdutivo ficar pensando sobre o cansaço.


Conclusão:
A minha intenção é de que esse texto possa ajudar e sirva como mais uma referência aos
instrumentistas de metal.

Para maiores informações, recomendo a todos três excelentes
livros:
The Art of Brass Playing, de Philip Farkas
Arnold Jacobs: Song and Wind, de Brian Frederiksen
Mastering the Trombone, de Edward Kleinhammer e Douglas Yeo
Nesses livros, poderão ser encontradas explicações detalhadas sobre diversos tópicos
que citei. É muito interessante observar no livro de Philip Farkas as fotos das
embocaduras de grandes artistas do naipe de metais da Sinfônica de Chicago (1962).


Um abraço a todos e bons estudos!
Fernando Dissenha


FARKAS, Philip. The Art of Brass Playing . Rochester: Wind Music, 1962.
FREDERIKSEN, Brian. Arnold Jacobs: Song and Wind. WindSong Press, 1996.
KLEINHAMMER, Edward e YEO, Douglas. Mastering the Trombone. Hannover: Edition Piccolo, 1997.